julho 31, 2010 | In: Devaneios
Um salto para a vida de casado.

Lembram quando chegávamos da escola, cochilávamos depois do almoço, a tarde encontrávamos os amigos, a maior preocupação era inventar novas brincadeiras, e a hora que não podíamos perder era a da sessão de desenhos? E agora? São provas, estágios, trabalhos. Contas, responsabilidades, compromissos. Datas e horários a serem cumpridos. Sono atrasado, falta de tempo e ter que dizer não pra tantas coisas que gostaríamos de fazer.
Essa é mais ou menos a diferença entra um diário de casal e, um diário de casado.
Eu já atravessei essa barreira há algum tempo. E a transição, apesar de difícil, se fez realizadora com o passar dos anos.
Além de uma aliança, uma certidão, um vídeo, álbum de fotos e atualizar o seu status em diversos sites, traz a profunda e muitas vezes assustadora descoberta de que, o seu amor, não é bem como você sonhava.
Me acostumei a viver curtos relacionamentos, extraia o suco da laranja e trocava antes de ter de espremer o bagaço. E a vida foi feliz enquanto os prazeres surpreendentes da solteirice satisfaziam meu ego e minha ânsia por ser feliz. O tempo transforma: comportamentos e sonhos . Muitos relutam, mas um dia, aquele pequeno vazio cresce, e o buraco fica grande demais pra ser preenchido sozinho.
Casais falam de descoberta. De suposições e até de programação futura.
Casados falam de reinvenção. De conclusões e de manutenção diária.
Casais fazem loucuras, surpreendem o parceiro e ficam um dia sem ligar.
Casados fazem supermercado, sabem a hora e os minutos em que o parceiro chega e ficam um dia sem se beijar.
Casais dizem te amo a cada encontro.
Casados provam o amor a cada gesto.
Casais e casados são a mesma coisa. A diferença é a metamorfose evolutiva de um poder desenvolvido espontaneamente pelo ser humano, chamado amor. Ele transfigura como tudo que existe dentro de nós e se põe à prova constantemente como um selo de felicidade, se submetendo a testes frequentes, onde encontramos respostas às perguntas mais importantes, que carregamos protegidas, com medo de não suprirem nossos anceios.
Quando me casei, já conhecia muto bem a minha esposa. Já morávamos juntos há 3 anos, e sabia onde estava me metendo. O casamento não foi a ponte que me levou pro lado derradeiro de um relacionamento.
Foi como saltar de pára-quedas: lá estavam um rapaz e uma moça incompletos voando alto, num avião cheio de outras pessoas, algumas realmente felizes pois tinham acabado de decolar e outras, que só conseguiam sorrir com a força do vento que lhes rasgava a face.
A paisagem lá de cima é estonteante, são tantas oportunidades que não queremos escolher apenas uma, dá uma falsa sensação de poder e ao mesmo tempo, impotência, pois não se pode tocar. Qual seria a temperatura daquele rio, que se mostra um fio azul lá do alto, e quantas frutas haveriam de existir naquela mata misteriosa?
E então abraçados, saltamos. Claro que exitamos algumas vezes e tivemos medo. Mas junto dele vieram adrenalina, sonhos e esperança. A paisagem se aproximando nos mostrava o que viria pela frente fazendo-nos perceber detalhes que não enxergávamos lá de cima. Cores novas, pássaros e montanhas se mostravam mais bonitos e verdadeiros, e enfim, após 3 anos, o casamento tornou-se um chão firme no qual pisamos, ao menos, um pouco mais preparados, para caminhar por terras incertas e com desafios reais, os quais tardam, mas nunca falham.
Pode ser que no alto dos meus 28 anos de experiência, tudo continue evolucionando ininterruptamente num esforço para me manter com um coração alegre, mas a verdade é que não trocaria o meu dia-a-dia de casado com todas as situações inconfortáveis que ele remete.
Desde que se encontre alguém que também queira saber o gosto daquela fruta, que fica depois daquele vale, onde só se chega caminhando depois de saltar daquele avião… tudo bem! A batalha diária de casado é árdua mas só recompensa aqueles que se arriscam.

















